Quando se fala em sazonalidade criminal, a pergunta costuma ser: em que meses o crime aumenta ou diminui? Há uma segunda pergunta, menos explorada e igualmente importante para a gestão: a produtividade policial também tem um calendário?

Esta análise compara as duas dimensões. O objetivo não é afirmar que uma causa a outra, mas identificar regularidades que ajudem o município a planejar recursos, interpretar variações e distinguir mudanças na demanda criminal de mudanças no funcionamento operacional.

Como fizemos a comparação

Usamos os registros mensais de criminalidade e produtividade policial de 38 municípios com cobertura completa em 2024 e 2025. A unidade temporal é o mês estatístico disponível de forma consistente nas bases. O ano de 2026, que tem dados somente até junho, não entra nas comparações principais.

Para levar em conta que os meses têm números diferentes de dias — especialmente fevereiro, que teve 29 dias em 2024 — transformamos os registros em taxas diárias. Depois, para cada município, calculamos um índice: a média diária de cada mês dividida pela média diária daquele município nos dois anos, multiplicada por 100. Assim, 100 representa o padrão médio de cada cidade.

O resultado agregado é a média dos índices municipais. Portanto, ele descreve um padrão comum entre cidades, sem dar peso maior aos municípios mais populosos. Também não é uma estimativa causal: os números mostram quando as ocorrências e as ações se concentram, não por que isso acontece.

O calendário dos crimes

O total de crimes apresenta um ciclo moderado. O maior índice aparece em outubro (108,3), seguido por janeiro (105,4) e abril (104,2). Os menores níveis estão em junho (93,8) e julho (92,8). A diferença existe, mas não sugere uma ruptura radical entre alta e baixa estação.

Os tipos de crime não seguem exatamente o mesmo desenho. Os roubos são mais elevados em janeiro (119,0) e março (118,7), enquanto os furtos atingem o pico em outubro (113,7), janeiro (110,2) e abril (107,6). Em junho, os roubos caem para 86,3; em julho, os furtos ficam em 93,7.

MêsCrimes totaisRoubosFurtos
Janeiro105,4119,0110,2
Fevereiro102,2110,1102,1
Março102,0118,799,0
Abril104,2103,5107,6
Maio99,0101,097,4
Junho93,886,394,5
Julho92,8102,893,7
Agosto96,888,895,3
Setembro102,889,895,5
Outubro108,397,9113,7
Novembro96,088,894,5
Dezembro96,893,496,6

Leitura da tabela: índice 100 = média diária do próprio município. Valores acima de 100 indicam meses acima da média; abaixo de 100, meses abaixo da média.

A polícia também muda o ritmo

A produtividade total tem seu ponto mais alto em março (105,7) e o mais baixo em julho (90,1). A queda no meio do ano também aparece nas prisões em flagrante: o índice chega a 79,6 em julho, contra 109,9 em março.

Mas as modalidades não se comportam de modo idêntico. As prisões em flagrante têm picos em março, agosto, novembro e dezembro. As prisões por mandado alcançam maior nível em setembro (114,0) e abril (109,5), mas ficam abaixo da média em outubro, novembro e dezembro. As apreensões em flagrante apresentam o maior pico em setembro (140,1) e o menor nível em julho (74,7).

MêsProdutividade totalFlagranteMandadoApreensão em flagrante
Janeiro101,7101,2105,0118,8
Fevereiro101,495,5102,0103,3
Março105,7109,9100,896,6
Abril100,798,6109,5105,1
Maio102,0103,6103,985,6
Junho93,580,8100,979,6
Julho90,179,695,974,7
Agosto102,5108,1102,8101,8
Setembro104,5102,7114,0140,1
Outubro98,9103,187,297,7
Novembro101,3107,890,2106,5
Dezembro97,9109,487,990,4

Os dois calendários coincidem?

A resposta curta é: apenas parcialmente. Há sinais de movimento conjunto em alguns períodos, como a elevação de janeiro e março em determinados crimes e ações. Também há uma queda no meio do ano que aparece em mais de uma série.

Mas a produtividade não é um espelho automático da criminalidade. Outubro, por exemplo, é o mês de maior índice para crimes totais e furtos, mas não para a produtividade policial. Setembro concentra o pico das prisões por mandado e das apreensões em flagrante, embora os crimes totais estejam apenas próximos da média. Isso é compatível com a ideia de que parte da atividade policial responde a investigações, operações, localização de procurados e ciclos administrativos que não se movem no mesmo dia ou mês dos registros criminais.

Em especial, prisões por mandado não devem ser interpretadas simplesmente como resposta imediata ao crime observado naquele mês. Elas podem refletir decisões judiciais, investigações acumuladas, operações planejadas e esforços de cumprimento que se materializam em momentos específicos. O padrão encontrado é uma evidência de calendário operacional próprio — não uma prova de ineficiência ou de descolamento da realidade criminal.

O que isso significa para o gestor?

Primeiro, o planejamento não deveria usar apenas a média anual. Saber que furtos tendem a estar acima da média em outubro e que roubos têm picos no início do ano ajuda a antecipar demandas diferentes.

Segundo, é útil acompanhar separadamente crime e produtividade. Uma queda nas prisões não significa automaticamente que o trabalho policial piorou; pode decorrer de uma composição diferente das ações, de defasagens investigativas ou de um ciclo operacional. Da mesma forma, uma alta de produtividade não deve ser tomada como evidência de que o crime necessariamente caiu.

Terceiro, o município pode usar os calendários para programar reuniões, reforços, operações e avaliação de resultados com mais contexto. O painel do URBIK permite descer da média municipal para bairros, microterritórios e tipos de ação — justamente onde a regularidade geral pode se modificar.

Uma agenda para acompanhar

Os resultados são informativos, mas ainda iniciais: há dois anos completos e 38 municípios, com grande diversidade entre eles. A análise deverá ser atualizada à medida que 2026 seja completado e novas cidades entrem na base. Com mais anos, será possível verificar quais picos se repetem, separar melhor calendários locais e testar se as defasagens entre crime e produtividade variam por modalidade.

A conclusão mais útil, por enquanto, é simples: as cidades têm um calendário criminal, e a polícia também tem um calendário operacional — mas os dois não são iguais. Conhecer ambos ajuda a interpretar os dados com mais cuidado e a planejar a segurança pública com menos improviso.

Fonte dos dados: base consolidada do URBIK. Análise restrita aos anos completos de 2024 e 2025, com taxas diárias e índices normalizados por município. Os dados de 2026, disponíveis apenas até junho, foram reservados para atualizações futuras.