Guardas Civis Municipais, Polícia Militar e Polícia Civil apresentam à autoridade policial pessoas com perfis diferentes? E essas diferenças permanecem quando comparamos os mesmos municípios e tipos de crime? Para responder, analisamos os microdados estaduais de produtividade policial da SSP-SP de 2025 e do primeiro semestre de 2026.

A comparação principal foi restrita aos 219 municípios que declararam possuir Guarda Civil na MUNIC 2023. Depois da deduplicação, o universo comparável reuniu 247.317 pessoas apresentadas por GCM, Polícia Militar ou Polícia Civil.

Um perfil semelhante, com diferenças pontuais

Nos flagrantes, o retrato geral é mais marcado pelas semelhanças do que pelos contrastes. Em todas as instituições, a grande maioria das pessoas apresentadas é masculina; cerca de três em cada dez têm menos de 25 anos; e mais da metade é classificada como preta ou parda.

InstituiçãoPessoasHomensIdade mediana<25 anosPretos/pardosAdolescentes
GCM35.24491,5%3129,8%57,5%6,7%
Polícia Militar102.31992,5%3031,9%58,6%6,7%
Polícia Civil22.19786,8%3029,1%54,7%5,0%

A Polícia Civil apresenta proporção maior de mulheres. GCM e PM, por sua vez, têm distribuições muito próximas de idade, cor ou raça e participação de adolescentes no agregado bruto. Entre os registros com escolaridade conhecida, 47,4% dos apresentados pela GCM tinham até o ensino fundamental, contra 48,1% na PM e 42,7% na Polícia Civil.

A natureza criminal ajuda a explicar as diferenças

A base de produtividade foi ligada à base de criminalidade pelo município, ano, número do boletim de ocorrência e delegacia. O número do BO isoladamente não é uma chave única. O pareamento encontrou correspondência para 111.220 pessoas em flagrante, vinculadas a 89.864 BOs distintos. A cobertura foi de 69,6% e praticamente idêntica entre as três instituições.

Por que controlar o tipo de crime?

Instituições que atendem combinações diferentes de ocorrências podem apresentar perfis distintos mesmo sem uma diferença autônoma na seleção das pessoas. Comparar o perfil sem considerar a natureza criminal pode confundir divisão do trabalho policial com características da instituição.

InstituiçãoTráficoFurtoLesão corporalRoubo
GCM49,6%22,0%16,2%6,1%
Polícia Militar40,1%19,9%19,2%11,3%
Polícia Civil75,5%11,7%3,0%3,3%

O tráfico de drogas responde por 49,6% dos flagrantes pareados da GCM, 40,1% dos da PM e 75,5% dos da Polícia Civil. Furtos possuem maior peso relativo na GCM, enquanto a PM apresenta proporções maiores de roubos e lesões corporais. A associação entre instituição e natureza é estatisticamente significativa, mas de magnitude limitada (V de Cramér = 0,128).

O que permanece depois dos controles?

Para separar composição criminal e contexto territorial, comparamos GCM e PM mantendo constantes o município e a natureza da ocorrência. Uma razão de chances igual a 1 indica ausência de diferença entre as instituições.

CaracterísticaRazão de chancesIC 95%p
Homem0,880,83–0,94<0,001
Pessoa preta ou parda1,061,02–1,100,002
Menos de 25 anos1,010,97–1,050,684
Até o ensino fundamental0,960,92–1,000,067
Adolescente1,211,13–1,29<0,001

Depois dos controles, não houve diferença estatisticamente identificável na chance de a pessoa ter menos de 25 anos ou baixa escolaridade. A chance de a pessoa ser homem foi cerca de 12% menor nas apresentações da GCM. A chance de classificação preta ou parda foi aproximadamente 6% maior — uma diferença pequena em magnitude, embora identificável devido ao grande número de observações. A participação de adolescentes foi 21% maior na GCM.

Como interpretar

O achado central não é a existência de perfis inteiramente diferentes, mas a combinação de uma base social amplamente semelhante com especializações operacionais distintas. Natureza criminal e contexto municipal explicam parte importante das diferenças observadas.

Os resultados não demonstram discriminação institucional nem filtragem racial. Para testar essas hipóteses seria necessário conhecer a população exposta ao policiamento, todas as abordagens realizadas, buscas que não resultaram em prisão, localização, forma de acionamento, denúncias e critérios de fundada suspeita. Cor ou raça também pode ter sido atribuída por terceiros, e não autodeclarada.

Escolaridade e profissão exigem cautela: a ausência varia de aproximadamente 29% a 49%, dependendo da variável e da instituição. Nacionalidade possui mais de 99,7% de ausência e não foi utilizada.

Conclusão

GCM, Polícia Militar e Polícia Civil atendem combinações diferentes de crimes, mas apresentam pessoas com perfis sociais mais semelhantes do que uma comparação superficial poderia sugerir. Depois de controlar município e natureza criminal, desaparecem as diferenças de idade e escolaridade entre GCM e PM; permanecem diferenças pequenas em sexo e cor ou raça e uma diferença mais clara na participação de adolescentes.

Para monitorar equidade e orientar a gestão, os municípios deveriam registrar não apenas quem foi preso, mas também as abordagens realizadas, seus motivos, resultados e localização. A transparência dessas informações permitiria avaliar padrões operacionais sem transformar associações descritivas em conclusões causais que os dados atuais não sustentam.

Fontes e referências

SÃO PAULO. Secretaria da Segurança Pública. Microdados estaduais de produtividade policial e dados criminais, 2025–2026.
IBGE. Pesquisa de Informações Básicas Municipais — MUNIC 2023.
BARROS, G. S. Filtragem racial: a cor na seleção do suspeito. Revista Brasileira de Segurança Pública, 2008.
SCHLITTLER, M. C. C. “Matar muito, prender mal”: a produção da desigualdade racial como efeito do policiamento ostensivo militarizado em São Paulo. UFSCar, 2016.
SINHORETTO, J. et al. Policiamento ostensivo e desigualdades em São Paulo e Minas Gerais. Caderno CRH, 2023.
SINHORETTO, J. et al. Prisões em flagrante por crimes de drogas: análise da seleção penal e da racionalidade policial. Sociedade e Estado, 2024.